Não é de hoje a consciência de que os artistas, mesmo os maiores e mais geniais, sempre foram presas fáceis de ricaços, ávidos por emprestar um sentido mais amplo às suas existências.
Graças a tal processo de troca entre dinheiro e arte, hodiernamente temos um magnífico registro de cada passo dado pelos homens em sua evolução cultural.
Nos mais variados cantos do planeta, pululam museus de todos os tipos demonstrando isso.
Podemos incluir nesse espólio também a arquitetura , que nos leva do Egito a Gaudí, e dele, a Niemeyer.
Artes plásticas, musicais, teatrais, coreográficas, cinematográficas, todas as formas de patrimônio artístico que ostentamos, foram construídas com a ajuda de bolsas recheadas de moedas.
Mesmo os talentosos que tiveram vida ou morte miseráveis, se são reconhecidos hoje, isto ocorre graças ao posterior valor de mercado que outros aferiram a suas obras.
Como exemplo, posso citar Gogh, Mozart e Allan Poe.
O primeiro, encerrou sua existência com um tiro; o segundo, foi enterrado como indigente e o terceiro, morreu afogado no próprio vômito, caído em uma sarjeta.
Por vezes, fui levado a pensar na literatura como sendo a única forma de livre manifestação artística que havia sobrevivido à sedução do dinheiro e ao luxo dos salões. Mas, atualmente, nem ela parece escapar.
As listas de best sellers são mais admiradas que os próprios livros.
Basta ouvir os relatos e entrevistas, ao final de uma humilde feira do livro na Praça da Alfândega, em Porto Alegre. Só se ouve que foram vendidos tantos a mais ou a menos, que o campeão de vendas foi Beltrano, que o lucro líquido compensou, ou não.
E deste fabuloso tilintar de coroas emergem, invariavelmente, novos nomes da moda, candidatos moldados às futuras citações literárias, proferidas com empáfia por engravatados de plantão.
Resta-nos o consolo de que sempre existirá a resistência verdadeiramente livre, mesmo relegada ao andar de baixo.
Nela, frutificam novas idéias, explodem emoções autênticas. Talvez por isso não preencham paredes de prédios suntuosos, não encorpem programações musicais destinadas ao grande público, nem lotem bibliotecas afamadas. Ocupam, isso sim, as mentes e os espíritos dos que entendem que viver é evoluir e evoluir é desvencilhar-se de todo e qualquer grilhão imposto pelo andar de cima.
Tento sintetizar esta situação nos primeiros versos da canção Inspiração:
Crio pela arte da vida, não pela vida da arte. Nem aspiro a espaço algum, apenas faço parte.
Galileu, estou de pleno acordo com você: nem só os artistas são “presas fáceis dos ricaços”; isso também sucede na mídia, onde os “jornalistas profissionais” e demais “especialistas” que, a toda hora, escrevem ou emitem “opiniões e pareceres especializados”, seja na mídia impressa ou nos demais meios, são em grande parte, uma súcia de semi-alfabetizados que garantem seus polpudos ganhos, apenas, dizendo o que querem ouvir os membros do baronato midiático. Enquanto a mídia brasileira for isso que aí está, lamentavelmente, não podemos esperar muito mais… Aliás, posso afirmar que essa súcia semi-alfabetizada não está presente apenas na mídia ou no meio artístico; garanto que há muitos semi-alfabetizados que ostentam títulos doutorais na academia, também… Lamentavelmente, tanto no meio artístico, como na mídia ou na academia, a avaliação dos méritos de seus respectivos integrantes passa longe de ser uma apreciação precisa; estando bem mais direcionada aos aspectos políticos, áreas de influência e critérios outros, que o real preparo e a verdadeira capacitação… É e sempre tem sido assim no Brasil. Daí a necessidade de nos antepormos sempre ao “discurso oficial”, seja ele o da arte, o da mídia, o acadêmico, ou qualquer outro que se limite a, meramente, repetir aquilo que apraz aos poderosos, em detrimento da verdade e do real conteúdo que encerra em si potencial de mudança verdadeiro.