Ser feliz é amar as pessoas certas

Milagres existem certamente e estou entre aqueles que por felicidade tem o privilégio de dar testemunho deles. Os milagres nos são trazidos pelas mãos dos amores, dos amigos e dos anjos que a vida generosamente interpõe em nosso caminho.

Aproveito este momento para registrar que, a partir de agora, usarei o nome próprio Vida em todas as oportunidades em que for citado Deus, pois entendo ser ela uma definição muito mais autêntica e completa. Dito isso, registro em primeiríssimo lugar minha enorme gratidão por tudo o que Vida tem me oportunizado de crescimento e amadurecimento nestes últimos dias.

Entrar em um hospital mais morto que vivo é comum, beira o banal da obviedade. Sair deste hospital engrandecido pela energia coletiva, consciente da grandiosidade deste evento, isto sim é especial, dádiva reservada a poucos.

Estar entre os que prazerosamente se inclinam sobre os joelhos e agradecem de maneira incessante às bênçãos que Vida pulveriza em suas existências é um luxo que merece ser enunciado em prosa e verso.

Enfrentar sobressaltos e obstáculos, ver saciados os desejos e angústias, degustar cada pequeno sabor de felicidade, isto e muito mais formam o que tratamos como natural. O cerne dos milagres, como é típico a todo o conteúdo de raiz, está na visão do básico e enxuto, sem firulas e devaneios. Milagres resultam da soma das necessidades com as saciedades. São estes encontros entre desejos e seres que definem tudo. Em minha vivência descubro um modo essencial de pensar que transmito sem medo a você: Vida é milagre, milagre é felicidade e ser feliz é amar as pessoas certas.

A vida em um dia

A Nova Vida do Ovo

O ovo cósmico, de Salvador Dali

Imagine um ovo fecundado, destinado a gerar uma nova vida. Imagine, em seguida, o ovo seco, frustrado em sua tentativa de gerar. Assim era o retrato de minha vida durante a segunda metade do mês de setembro deste ano de 2011. Exaurido, sangrando com o que já não possuía mais de sangue, sem capacidade de produzir um mínimo necessário para continuar vivendo. Assim chegou meu corpo ao Hospital de Clínicas em Porto Alegre.

Neste momento, inicia o que, como leigo que sou, posso me permitir chamar de milagre, mesmo respeitando, acima de tudo, a capacidade de trabalho e o conhecimento científico que detém uma equipe médica de competência inquestionável.

O Nascimento do Mundo, de Salvador Dali

Este fato, aliás, é por óbvio a razão da enorme fama de centro de excelência médica que possui o Hospital de Clínicas da nossa capital. A primeira mão de anjo que me tocou trouxe com ela poderes divinos, em muito superiores a toneladas de conhecimento científico. O anjo dono da mão tem nome sim, é doutora Inara von Holleben, belíssimo ser de luz, fortíssimo espírito do universo. Ela praticamente me ressuscitou e me permitiu experimentar novamente o sopro da vida. Também deram-me o privilégio de sua atenção vários profissionais que merecerão de mim gestos de eterna e extremada gratidão. Doutora Karoline, doutor Rafael, doutora Patrícia, doutor Jerônimo, doutor Luciano. Dedico especial menção ao doutor Leonardo Bridi, que mostrou ser mais que um médico, um amigo, mais que um amigo, um sábio, mais que um sábio, uma alma protetora. Com sua voz segura e suave, coube a ele me mostrar o desafio que tenho pela frente: enfrentar um câncer já bem desenvolvido e buscar a cura possível, com coragem e persistência. Em cada palavra que sai de sua boca, o doutor Leonardo transporta credibilidade e uma incrível capacidade de vitória. Citando finalmente as presenças amigas do doutor Seiki e do doutor Tiago, certamente, devo estar esquecendo alguns nomes, de tão grande e expressiva que é a equipe médica do Clínicas. E também nem me atrevo a fazer citações individuais ao agradecer de todo o meu coração o carinho, a dedicação, a seriedade e a atenção generosa da equipe de base do HC, seu abnegado corpo de enfermagem e de técnica hospitalar. Eles são simplesmente sen-sa-cio-nais. Sim, temos na capital do Rio Grande um hospital digno de figurar entre os melhores do mundo. O HC é muito mais que um mero motivo de orgulho para Porto Alegre, é garantia de respeito e valorização da vida de cada habitante de nossa terra.

Um agradecimento especialíssimo à minha irmã médica, doutora Margaret, dona da primeira inspiração que me levou ao Clínicas e à minha outra irmã Bernadete, igualmente médica, que colocou na prática a ideia da maninha Marga. Agradecimentos especiais reservo também às minhas filhas, filhos e familiares, ao mano guru Mauro Kwitko e sua grande família ABPR, ao irmão Aristides Kucera, aos igualmente irmãos Nando Gross e Niederauer e ao pessoal do Sala de Redação e do Pretinho Básico, que prontamente apelaram aos microfones da RBS e às dezenas de doadores que atenderam seus chamados, somados aos milhares de amigos e amigas que enviaram mensagens de estímulo e alegria. À minha Lu, grande e insubstituível razão de ser, mais que gratidão, dedico todo o meu amor e sonho de existência. Tê-la ao meu lado se traduz em toda a vontade de viver que carrego comigo.

ENCERRANDO, AQUI VAI MEU BIG APLAUSO PARA ESTE BIG HOSPITAL, QUE PROVOU TALENTO E EFICIÊNCIA MAIS QUE SUFICIENTES PARA DEVOLVER UMA VIDA AO MUNDO. PROVOU SER CAPAZ DE DAR UMA NOVA VIDA AO OVO.

PS.: No próximo dia 18 de outubro, terça-feira, a doutora Inara comemora seu aniversário. Receba de nossos corações os mais agradecidos e ternos abraços, com votos de muita sorte, saúde, sucesso e sabedoria.

Felicidade. E a sua, como vai?

Razão alguma nasce sem seu objetivo primordial: satisfazer ao dono.
Alexandre, de sua acanhada Macedônia e eivado de aristotélicas tergiversações, deu a si o sonho de imperar sobre o mundo e se fez “o Grande”. Morreu covarde e miseravelmente envenenado com pouco mais de trinta anos, sem nem saber direito o que estava fazendo na festa.
Dumont deu literalmente asas aos seus sonhos, circundou a “Tour Eiffel” para, no fim de sua breve história, se pendurar pelo pescoço até a morte, num medonho simulacro de puxão de orelha em si mesmo.
Virgínia Woolf se arrastou lentamente pelas águas de um rio até submergir. Aos 59 anos, reconhecida e prestigiada autora inglesa, a tristeza fez dela mais uma de suas ilustres vítimas. Não à toa, o vazio interior é o ingrediente que mais fermenta e inflama na corporificação das tragédias.
Eu poderia citar outras histórias com final infeliz por milhares e milhares de anos a fio, sem pausa nem para ir ao banheiro.
É notória essa característica da civilização humana.
A felicidade insiste em se mostrar quase sempre inatingível.
O erro está em pular para alcançá-la. Ela mora nas solas dos pés, nas palmas das mãos, no céu da boca, na sombra das pálpebras.
Se alguém necessitar de um passo maior que as pernas, de um abraço maior que sua envergadura, ou de um beijo de dentes bonitos, jamais tocará n’Ela. Ela, a felicidade, é imaterial. É a mais convincente argumentação a respeito da existência da alma. Se Deus existe, Ele é Ela. Se Ela existe é a Ele que dedicamos nossa gratidão.
A origem se registra quando se busca por Ela. A eternidade se plasma quando se finda n’Ela.
Como tenho a agradecer, com toda a energia de meu coração, pois Ela me tornou seu quando eu ainda nem sabia o que era tocá-la.

A arte é sócia do mundanismo?

Não é de hoje a consciência de que os artistas, mesmo os maiores e mais geniais, sempre foram presas fáceis de ricaços, ávidos por emprestar um sentido mais amplo às suas existências.

Graças a tal processo de troca entre dinheiro e arte, hodiernamente temos um magnífico registro de cada passo dado pelos homens em sua evolução cultural.

Nos mais variados cantos do planeta, pululam museus de todos os tipos demonstrando isso.

Podemos incluir nesse espólio também a arquitetura , que nos leva do Egito a Gaudí, e dele, a Niemeyer.

Artes plásticas, musicais, teatrais, coreográficas, cinematográficas, todas as formas de patrimônio artístico que ostentamos, foram construídas com a ajuda de bolsas recheadas de moedas.

Mesmo os talentosos que tiveram vida ou morte miseráveis, se são reconhecidos hoje, isto ocorre graças ao posterior valor de mercado que outros aferiram a suas obras.

Como exemplo, posso citar Gogh, Mozart e Allan Poe.

O primeiro, encerrou sua existência com um tiro; o segundo, foi enterrado como indigente e o terceiro, morreu afogado no próprio vômito, caído em uma sarjeta.

Por vezes, fui levado a pensar na literatura como sendo a única forma de livre manifestação artística que havia sobrevivido à sedução do dinheiro e ao luxo dos salões. Mas, atualmente, nem ela parece escapar.

As listas de best sellers são mais admiradas que os próprios livros.

Basta ouvir os relatos e entrevistas, ao final de uma humilde feira do livro na Praça da Alfândega, em Porto Alegre. Só se ouve que foram vendidos tantos a mais ou a menos, que o campeão de vendas foi Beltrano, que o lucro líquido compensou, ou não.

E deste fabuloso tilintar de coroas emergem, invariavelmente, novos nomes da moda, candidatos moldados às futuras citações literárias, proferidas com empáfia por engravatados de plantão.

Resta-nos o consolo de que sempre existirá a resistência verdadeiramente livre, mesmo relegada ao andar de baixo.

Nela, frutificam novas idéias, explodem emoções autênticas. Talvez por isso não preencham paredes de prédios suntuosos, não encorpem programações musicais destinadas ao grande público, nem lotem bibliotecas afamadas. Ocupam, isso sim, as mentes e os espíritos dos que entendem que viver é evoluir e evoluir é desvencilhar-se de todo e qualquer grilhão imposto pelo andar de cima.

Tento sintetizar esta situação nos primeiros versos da canção Inspiração:

Crio pela arte da vida, não pela vida da arte. Nem aspiro a espaço algum, apenas faço parte.

Deus tem corpo e alma

Concilie-se com os universos.
Eles são o corpo de Deus.
Incandeça-se no interior da menor partícula de energia.
Ela é a alma de Deus.
Por maior que seja, ou por menor, a vida é Deus e lhe pertence por inteiro.
Michelângelo e da Vinci, somados a tantos outros talentos da arte humana, buscaram retratar a imagem de Deus.
Seus esforços resultaram em belíssimas obras de esplendorosa ignorância. A imagem de Deus, construída por eles, era indefectivelmente semelhante a dos homens.
Afinal, todos tinham uma coisa em comum: sustentavam suas vidas com os patrocínios de poderosos submetedores, sempre interessados em concretizar poder instaurando o temor, ostentando riquezas.
Mesmo assim, a arte humana é mais e mais encantadora.
Nefastos, geradores de antagonismos e insidiosos, os dez mandamentos superam em muito todas e quaisquer outras manifestações com tendências a humilhar, escravizar e mediocrizar a humanidade.
Deus não julga, muito menos condena ou aplaude.
Nem sequer dirige uma mínima sugestão às nossas vidas.
Ele É nossas vidas, pois nossas vidas SÃO Ele.
É toda a matéria, é toda a energia, assim como é a ausência de tudo.
Não nos cabe entendê-lo. Nos cabe vivê-lo.
Nos universos, o que existe em harmonia nos representa o paraíso; em desarmonia, o inferno.
E basta.
Sorrir é expressar o primeiro. Sofrer é expressar o segundo.
E você é quem detém o arbítrio que torna possível escolher qual o caminho.
De minha parte, espere sempre o sorriso.
Teu dormir, desejo que acalante.
Teu sonhar, eu tentarei tornar mais belo.

Desnudando o mito do sucesso

Montagem: Um desconhecido artista de rua e Justin Bieber, o maior ídolo juvenil de 2010

Partindo do princípio de que dois artistas têm igual talento, carisma e moram no mesmo andar social, vou colocar uma questão instigante.

Por que Fulano fez sucesso e Beltrano, não?

Posso acrescentar também que ambos davam total dedicação à carreira artística, faziam shows e eram reconhecidos e prestigiados em suas regiões de origem.

Por que Fulano e não Beltrano? É tão simples que chega a aturdir.

A internet traz à tona esta realidade. Se você enviar 10 mil e-mails com um apelo inteligente colherá um pequeno percentual de usuários interessados que abriram e leram sua mensagem. Se enviar 100 mil, constatará o mesmo percentual, só que quantitativamente 10 vezes maior. E assim por diante, um milhão, dez milhões, cem milhões.

Este é o segredo das majors. Com muito dinheiro na mão, elas dominam o circo da divulgação e transformam suas fortunas milionárias em bilionárias. O que explica as diferenças dos destinos de Fulano e Beltrano é que o primeiro estava no lugar certo, na hora certa e caiu nas graças do Midas-Boss certo. Beltrano, por não ter a mesma sorte, não deve entrar em depressão. Que lhe sirvam de estímulo os antigos ditados “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” e “de grão em grão, a galinha enche o papo”.

Talento é sempre bem-vindo. E ser famoso às vezes até infelicita. Pelo menos, é o que se extrai da mídia, que mostra todos os dias os atropelos e desprazeres dos popstars, também proporcionalmente maiores que os dos artistas de menor popularidade.

Em meu álbum Fechadão Feito um Lobo Olhando pra Lua, existe uma canção chamada É linda, é linda e é vida. Dela, extraio alguns versos que arrematam do meu jeito este assunto:

Se medirmos um homem igual a outro homem

Nenhuma razão dividida

Saberemos, então, que onde há coração

Não há causa perdida.

A quem se agarra ao velho, Deus não dá o novo

Ao longo de algumas décadas, supus que a estabilidade financeira era o mais destacado quesito estruturante de minha realização pessoal.
Claro, junto com ela – imitando todos os demais humanos – eu sonhava conhecer o amor, a ternura, a amizade, a alegria, o gozo, enfim.
O tempo, no entanto, insistiu em tornar-me mais sábio e colocou diante de mim esta realidade que julgo dificílima de contestar: A quem se agarra ao velho, Deus não dá o novo.
Uma pedra em meu sapato incomodava sobremaneira.
Um sacolão de in: Insatisfação, infidelidade, inconstância, intolerância e, é claro, incredulidade.
Das mais variadas marcas de uísque, vinho e cerveja, sabia de cor o sabor e o grau de ilusão.
Da música, recebia afagos e volúpias.
Dos livros, questionamentos infindáveis.
Aí, parei.
Desfiz-me das amarras, chutei literalmente o balde.
De um dia para o outro, deixei de ser o “querido” que enchia muitos bolsos de dinheiro, mandei às favas o establishment e embarquei em nova aventura, sem segurança de percurso e sem garantia de final feliz.
Apanhei, sofri, aprendi o grande valor que é amar e ser amado.
Conquistei, sorri, conheci o grande medo de perder esse amor.
“É luz que vem que nem clarão, que vem e traz inspiração…”
O homem pode dizer de si o que quiser, de sua vida inventar notáveis lendas, em sua conta bancária acumular fortunas.
Mas isso não serve para demarcar sua felicidade.
Feliz, realmente feliz, só aquele que, sorrindo com graça e pureza, pode a qualquer momento receber a morte, sem a sensação perturbadora de ter deixado algo para trás.
Este é um privilégio dos que se entregam ao novo, pois do velho guardam somente precioso aprendizado.
Viver é evoluir, ousar, desvendar.
A melhor lembrança que se pode ter quando se está no podium é a do formato de cada pedra ultrapassada no caminho.
Ela, a lembrança, é a verdadeira riqueza que amealhamos, o verdadeiro cerne da sabedoria.